O Bom Samaritano

Nas celebrações do próximo domingo, o Evangelho a ser proclamado será a comovente Parábola do Bom Samaritano contada por Jesus para responder a pergunta de um doutor da Lei, sobre quem seria o seu próximo. No fim da narração, Jesus devolve a pergunta: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?”. A resposta não podia ser outra: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”.

A misericórdia, portanto, nos faz próximos das pessoas. Muito fácil de entender. Muito difícil de viver. Jesus com sua parábola ensina que antes de me preocupar em saber quem é meu próximo, eu devo procurar ver se de fato me reconheço como próximo das outras pessoas.

O Papa Francisco, no dia 10 de julho de 2016, na hora do Angelus, na Praça de São Pedro, comentando o gesto do Bom Samaritano, assim se expressou: “Jesus inverteu completamente a perspectiva inicial do doutor da Lei, e também a nossa: não devo catalogar os outros para decidir quem é o meu próximo e quem não é. Depende de mim, ser ou não ser próximo – a decisão é minha – depende de mim, ser ou não ser próximo da pessoa com a qual eu me encontro e que tem necessidade de ajuda, mesmo que seja desconhecida, ou talvez até hostil. E Jesus conclui: ‘Vai, e também tu faze o mesmo’ (…) tornando-te próximo do irmão e da irmã que tu vês e m dificuldade”.

No final da reflexão, o Papa, provoca-nos: “Faço-me próximo, ou simplesmente passo ao lado? Sou daqueles que seleciono as pessoas a bel-prazer? É bom fazer estas perguntas, e fazê-las frequentemente, porque no fim seremos julgados pelas obras de misericórdia. O Senhor poderá dizer-nos: e tu, recordas aquela vez ao longo do caminho de Jerusalém para Jericó? Aquele homem meio morto, era eu. Recordas? Aquele menino faminto, era eu. Recordas? Era eu aquele migrante que muitos querem expulsar. Era eu aqueles avós sozinhos, abandonados nas casas de repouso. Era eu aquele doente no hospital que ninguém vai visitar”.

Numa outra oportunidade, na Audiência Geral das quartas-feiras, do dia 27/04/2016, também comentando a Parábola do Bom Samaritano, o Papa Francisco fez esta observação: “Se não me aproximo daquele homem, daquela mulher, daquela criança, daquele idoso ou daquela idosa que sofre, não me aproximo de Deus”.

Nesta mesma catequese, o Papa diz-nos que o âmago da Parábola está na expressão “encheu-se de compaixão”, o seja, o coração do samaritano e as suas vísceras se comoveram. Demonstrou com este sentimento que estava sintonizado com o coração de Deus, pois a «compaixão» “é uma característica essencial da misericórdia de Deus. Deus tem compaixão de nós, ou seja, padece ao nosso lado, sente os nossos próprios sofrimentos. Compaixão quer dizer «padecer com». O verbo indica que as vísceras se movem e estremecem à vista do mal do homem. E nos gestos e ações do bom samaritano reconhecemos o agir misericordioso de Deus em toda a história da salvação. É a mesma compaixão com a qual o Senhor vem ao encontro de cada um de nós: Ele não nos ignora, conhece as nossas dores, sabe como temos necessidade de ajuda e de consolação.

O samaritano comporta-se com verdadeira misericórdia: cura as feridas daquele homem, transporta-o para uma hospedaria, cuida pessoalmente dele e provê a sua assistência. Tudo isto nos ensina que a compaixão, a caridade, não é um sentimento incerto, mas significa cuidar do outro até pagar pessoalmente por ele. Significa comprometer-se dando todos os passos necessários para «se aproximar» do outro até se identificar com ele: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Eis o Mandamento do Senhor.

Concluindo a parábola, Jesus inverte a questão do doutor da Lei e pergunta-lhe: «Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?» A resposta é finalmente inequívoca: «Aquele que foi misericordioso para com ele». No início da parábola, para o sacerdote e para o levita o próximo era o moribundo; no final, o próximo é o samaritano que se fez próximo. Jesus inverte a perspetiva: não classifiques os outros para ver quem é próximo e quem não é. Tu podes tornar-te próximo de quem quer que se encontre em necessidade, e sê-lo-ás se no teu coração sentires compaixão, ou seja, se tiveres a capacidade de padecer com o outro.

Esta parábola é para todos nós uma dádiva maravilhosa, mas também um compromisso! A cada um de nós, Jesus repete aquilo que disse ao doutor da Lei: «Vai, e também tu faze o mesmo!». Somos todos chamados a percorrer o mesmo caminho do bom samaritano, que é a figura de Cristo: Jesus debruçou-se sobre nós, fez-se nosso servo, e foi assim que nos salvou, para que também nós pudéssemos amar-nos como ele nos amou”.

  Dom Manoel João Francisco – Bispo de Cornélio Procópio (PR)
CNBB