Jesus, no deserto, era guiado pelo Espírito e foi tentado pelo diabo

Em todas as Santas Missas, nós rezamos com sinceridade ao Pai: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal”. Em nossas orações pessoais, tantas vezes suplicamos a Deus que Ele nos livre da infidelidade e da desobediência ao seu amor misericordioso. À luz do evangelho deste 1º Domingo da Quarema, sabemos que o objetivo das tentações é gerar em nossa vida uma inimizade com Deus e uma recusa consciente de sua presença em nossa história.

Como seres humanos, estamos expostos a muitas ocasiões e propostas que não se coadunam com a vontade do Senhor. Diante da realidade concreta da vida, o que devemos fazer? Qual escolha realizar? Jesus não retira o protagonismo de nossas decisões, mas, com o seu exemplo e com a sua graça, nos ensina que devemos percorrer um caminho de serviço e de obediência, por meio de uma luta perseverante contra o egoísmo na relação com os outros e com o próprio Deus.

Para entendermos as tentações, é muito importante relembrarmo-nos dos episódios narrados por Lucas no capítulo 3 de seu evangelho. Por exemplo, o evangelista nos apresenta a pessoa e atividade de João Batista no deserto (3,1-18), bem como a notícia da prisão desse personagem pelo tetrarca Herodes (3,19-20). Lucas narra ainda o batismo do Senhor (3,21-22) e nos oferece uma visão geral sobre a genealogia de Jesus (3,23-38). Por fim, os treze versículos do evangelho de hoje (4,1-13) completam esse quadro narrativo, com o relato da tentação de Jesus pelo diabo, antes do início de sua atividade pública nas sinagogas da Galileia (4,14-15).
Qual é a intenção de Lucas nessa parte de seu evangelho? Demonstrar que Jesus não é somente um profeta como João Batista, mas o Messias, capaz de batizar o seu povo no Espírito e no fogo (3,16). Nessa condição, Jesus é o Filho, que assume o seu messianismo a partir da tradição profética de Israel. Ele será acolhido e, ao mesmo tempo, rejeitado pelos seus contemporâneos, da mesma forma como os profetas o foram no Antigo Testamento. Nessa perspectiva teológica, o Evangelho deverá ser proclamado, segundo o desígnio divino, tanto aos judeus, quanto aos gentios (2,14).

Por essa razão, o evangelista insere, entre as cenas do batismo (3,21-22) e das tentações (4,1-13), uma genealogia, que une a história de Jesus à história de Adão (3,38). Dessa forma, os leitores da comunidade de Lucas constatam que não somente os descendentes de Abraão, mas todas as pessoas, em Cristo, verão a salvação do Senhor (3,6). Nesse processo, o Espírito Santo terá um papel fundamental tanto na vida de Jesus (1,35.67; 2,27; 3,16.22; 4,1) quanto na vida da futura comunidade cristã (At 1,4.8), pois se observa, claramente, a passagem do batismo com água à novidade do batismo no Espírito, experimentado pelos discípulos no dia de Pentecostes (At 2).

O texto evangélico

Se compararmos a versão de Lucas com a de Mateus (4,1-11), verificaremos que o nosso evangelista organiza de maneira diferente a ordem das três tentações. Lucas, ao contrário de Mateus, preferiu apresentar, como o local da terceira tentação de Jesus (Lc 4,9), a parte mais alta do Templo de Jerusalém. Por que o evangelista fez isso? A nossa análise haverá de responder a esse questionamento inicial.

a) Introdução (vv.1-2): esses versículos nos informam que Jesus voltou do Jordão pleno do Espírito Santo. O leitor é chamado a se lembrar da cena do batismo (3,22), episódio no qual o Messias recebe o Espírito em vista de sua futura missão (4,18-19). Esse mesmo Espírito conduz Jesus ao deserto, para que ele possa fazer, como Israel, a experiência do êxodo (Dt 8,2). Durante quarenta dias, Jesus vive, de fato, uma experiência de plenitude divina. Ele não come nenhum tipo de alimento, uma vez que o próprio Espírito é o seu maná. O narrador nos diz, porém, que o diabo o tentava durante esse período.

Por acaso existe alguma contradição entre ser pleno do Espírito e, ao mesmo tempo, tentado pelo diabo? Evidentemente não, pois o deserto, na Bíblia, é tanto o local da tentação quanto da intimidade com Deus.Por exemplo, durante 40 dias, Moisés ficou sem comida e bebida no Monte Sinai (Ex 24,18; 34,28; Dt 9,9.11.18). Também, Elias andou por 40 dias até chegar ao Horeb, o monte de Deus (1Rs 19,8). Durante 40 anos, o povo de Israel caminhou pelo deserto em direção à terra prometida. Portanto, esse período de 40 dias ou 40 anos indica um tempo decisivo, um momento fundamental para que uma pessoa ou um povo assuma, na presença de Deus, uma nova etapa em sua história. No caso de Jesus, essa etapa será sua atividade pública e a sua pregação sobre o Reino de Deus.

b) Primeira tentação (vv.3-4): O diabo faz o seguinte desafio a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão” (v.3). A proposta do tentador não consiste no simples ato de saciar a fome, mas no uso do próprio poder a favor de si mesmo. Jesus sabe que deve utilizar o poder do Espírito Santo para libertar os homens de todas as formas de opressão. Contra o diabo, Jesus cita a Escritura: “Não só de pão vive o homem” (Lc 4,4; Dt 8,3).

Sua resposta é muito profunda, pois significa que Jesus deseja viver a sua condição de Filho como um homem unido e obediente a Deus. No deserto, Israel foi chamado a se alimentar do maná, como um sinal do cuidado e do amor do Senhor. Também, Jesus, ao se sentir amado pelo Pai, coloca-se a serviço da humanidade e aceita, livremente, as futuras dificuldades de seu ministério messiânico. Em seu coração de Filho, não existe espaço para a desobediência nem para o abuso da bondade do Pai.

c) Segunda tentação (vv.5-8): nesse momento, o diabo conduz Jesus para o alto e lhe mostra todos os reinos da terra. Para saciar a necessidade humana de poder, o tentador promete a glória do mundo a Jesus, com a única condição de que ele o adorasse. Em muitas ocasiões, o Novo Testamento caracteriza o diabo como o governante de um mundo que se opõe a Deus e ao seu Reino (2Cor 4,4; Jo 12,31; 14,30; 16,1). Na realidade, Satanás conhecia a promessa da Escritura, segundo a qual o Messias haveria de governar e de submeter todos os reinos da terra (Sl 2,8; Dn 7,14; Mt 28,18).

Sua proposta tem como objetivo distorcer essa promessa e desviar Jesus do caminho da cruz e do sofrimento, substituindo-o pelo caminho da riqueza e da idolatria do poder. Diante disso, Jesus lhe responde: “Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Lc 4,8; Dt 6,13;10,20), já que o coração do homem não pertence ao mundo ou ao diabo, mas unicamente a Deus. Com essa resposta, Jesus olha para o passado da história de Israel e reconhece que, durante a caminhada do deserto, o povo foi chamado a servir o Senhor. Nesse sentido, Jesus fará a mesma experiência em sua vida, rejeitando abraçar toda forma de idolatria e de messianismo político. Seu ministério consistirá em assumir o projeto do Pai, com todas as suas consequências, inclusive, a rejeição e a cruz.

d) Terceira tentação (vv.9-12): depois de ter negado qualquer forma de adoração e de fidelidade ao diabo, o tentador conduz Jesus até o Templo de Jerusalém, onde Deus era adorado pelo povo de Israel. Lucas situa a terceira tentação nesse local, pois, em seu evangelho, Jesus caminha em direção a Jerusalém, onde será crucificado (Lc 22-23). Essa tentação é a pior de todas, pois o diabo, ao observar que Jesus utiliza a Escritura como sua arma de defesa, resolve também usar o texto bíblico para confundir seu opositor (Sl 91,11-12). Tanto o Templo quanto a Escritura eram as bases da fé israelita.

De forma astuta, Satanás sugere a Jesus a ideia de um Deus onipotente e de uma fé reduzida a instrumento de manipulação religiosa. O diabo, portanto, tem como objetivo convencer Jesus a ser um Messias que ensine às pessoas uma concepção mágica do divino, segundo a qual Deus se submeteria à vontade humana. Diante disso, Jesus lhe responde: “Não tentarás o Senhor teu Deus” (Lc 4,12; Dt 6,16; Is 7,12). O Senhor, portanto, deixa claro que Deus não pode ser experimentado por meio de provocações e de chantagens emocionais. Como Filho, Jesus sabe que a verdadeira religião consiste em um relacionamento gratuito, amoroso e incondicional com o Pai.

e) Conclusão (v.13): Lucas narra que o diabo afastou-se de Jesus para retornar em um tempo oportuno. Com isso, o evangelista ensina ao seu leitor que a ação diabólica não se restringe somente ao momento que antecede a atividade pública de Jesus (Lc 3,1-4,13). Esse versículo nos conduz até a Paixão do Senhor (22,3.31.35), quando o diabo reaparece para tentar Judas, Pedro e os demais discípulos, bem como Jesus na cruz (23,35-39).

Para refletir

a) Viver a Quaresma como um tempo de intimidade com o Senhor
Nesse período litúrgico, o Espírito Santo também deseja conduzir-nos para o deserto. Como Jesus, devemos ser dóceis à sua ação, para podermos experimentar o amor de Deus em nossas vidas. É tempo de discernimento espiritual em relação às nossas atitudes, aos nossos limites existenciais e à nossa fidelidade ao Senhor. Muitas vezes, temos medo do silêncio do deserto, pois fugimos de nós mesmos e da verdade de Deus sobre a nossa história.

Nessa perspectiva, Quaresma é um tempo especial de intimidade consigo mesmo diante de Deus Pai, com Jesus, no Espírito Santo. Se, de fato, reconhecemo-nos que somos filhos amados, nós aceitaremos viver esse processo de crescimento interior. Para isso, precisamos questionar-nos: Sou capaz de escutar a voz de Deus em meu coração? Reservo um tempo para o diálogo com o Senhor? Confio em Deus e suplico sua ajuda nos meus momentos de crise, de sofrimento e de solidão? Leio e escuto a Palavra com o sincero desejo de assumir, como Jesus, o projeto de Deus em minha vida? Conheço os meus limites e as minhas fraquezas? Eu ofereço minha vida ao Pai, unindo-me à cruz de Cristo?

b) Fazer a memória da fé e da experiência de Deus na vida pessoal e na história da comunidade
A primeira leitura (Dt 26,4-10) apresenta o reconhecimento de Israel a Deus, como aquele que escutou a voz de seus filhos e os libertou da opressão, da miséria e da angústia (Dt 26,7). Assim, a adoração ao Senhor e a celebração litúrgica da fé é uma resposta ao amor prévio de Deus pelo seu povo.

À luz da Escritura, devemos também olhar para a caminhada de nossa vida e identificar os diversos sinais do amor divino. Como discípulos de Jesus, sabemos que a nossa fé se fundamenta no testemunho da Igreja e das inúmeras pessoas que nos precederam. O próprio Jesus, na luta contra o diabo, retoma a história de Israel como critério pessoal para discernir a vontade do Pai.
Nós também recordamo-nos da caminhada do povo de Deus? Como comunidade, as nossas celebrações se configuram como a fonte de nossa espiritualidade e da nossa relação com o Senhor? Faço memória da vida e das palavras de Jesus, para que elas me ajudem a discernir os valores e as atitudes a assumir no dia a dia de minha vida?

c) Acolher o evangelho como palavra de Salvação
Paulo nos convida a crer em Jesus, reconhecendo-o como nosso Salvador (Rm 10,8-13). Tanto a primeira leitura quanto o salmo nos convidam a invocar a Deus com sinceridade e em espírito de adoração. O apóstolo também nos exorta a invocar o nome do Senhor Jesus. Nessa perspectiva, a fé é o grande instrumento por meio do qual poderemos vencer o Maligno. Como cristãos, sabemos que a última palavra em nossa história pertence a Cristo? Na Quaresma, somos chamados a reconhecer que a sua palavra habita dentro de nós!

d) Lutar contra o mal por meio de uma união espiritual com Jesus
No evangelho, Jesus nos ensina que a Palavra é a nossa armadura diante das tentações. Entretanto, não basta apenas conhecê-la teoricamente, já que é preciso experimentá-la na vida e no coração. Ajudados pelo Senhor, podemos dar passos significativos na superação de nossas dependências físicas, afetivas e espirituais.

Ele não apenas nos ensina o caminho, mas também derrama em nossos corações a sua graça. Portanto, Jesus nos revela como podemos submeter a nossa vontade à vontade do Senhor, como podemos vencer o egoísmo e experimentar o amor do Pai em nossas vidas. Estamos dispostos a aceitar esse belo desafio?
Um santo domingo a todos!

Vatican News